Ave ameaçada de extinção faz ninho em pilar da Terceira Ponte e queda de filhotes no mar mobiliza força-tarefa no ES
A pergunta que fica é: por que uma ave ameaçada de extinção escolheria um pilar de concreto sobre o mar para fazer seu ninho? A resposta está na escassez de áreas seguras para reprodução no litoral capixaba. Um casal de trinta-réis-real (Thalasseus maximus) construiu ninho em um pilar da Terceira Ponte, na Grande Vitória (ES). A espécie, que consta na lista oficial de espécies ameaçadas do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (IEMA), surpreendeu biólogos e mobilizou uma força-tarefa depois que filhotes começaram a cair no mar.
Um casal de trinta-réis-real (Thalasseus maximus), ave ameaçada de extinção, fez ninho em um pilar da Terceira Ponte, na Grande Vitória (ES). A espécie, que consta na lista oficial do IEMA de espécies ameaçadas, escolheu o local para se reproduzir. Porém, os filhotes caíram no mar devido à estrutura íngreme, mobilizando uma força-tarefa do IEMA, do Projeto Aves Vitória e do CTA para resgate e monitoramento.
A espécie: trinta-réis-real e seu status de ameaça
O trinta-réis-real (Thalasseus maximus) é uma ave marinha migratória que ocorre em todo o litoral brasileiro. Segundo a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção, publicada pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), a espécie é classificada como "em perigo" (EN). No Espírito Santo, o IEMA incluiu o trinta-réis-real na lista estadual de espécies ameaçadas, devido à perda de habitat e à pressão humana nas praias de reprodução.
A espécie mede entre 45 e 50 centímetros de comprimento, com envergadura de asas que pode chegar a 1 metro. Alimenta-se de peixes pequenos, mergulhando para capturá-los. A reprodução ocorre em colônias, geralmente em ilhas arenosas ou costeiras, mas a urbanização e o turismo têm empurrado as aves para estruturas artificiais.
Por que o ninho foi construído em um pilar da Terceira Ponte?
A Terceira Ponte, oficialmente chamada Ponte Deputado Darcy Castello de Mendonça, liga Vitória a Vila Velha. Com 3,3 quilômetros de extensão, ela cruza a baía de Vitória. Os pilares de concreto oferecem uma superfície plana e elevada, longe de predadores terrestres e do trânsito de pessoas nas praias. O ninho foi localizado em um pilar central, a cerca de 15 metros de altura.
Biólogos do Projeto Aves Vitória, vinculado à Secretaria Municipal de Meio Ambiente, explicam que a espécie busca locais seguros para reprodução, mas a estrutura da ponte é inadequada: a superfície inclinada e a proximidade com o mar tornam os filhotes vulneráveis a quedas. "O trinta-réis-real está se adaptando a ambientes urbanos, mas isso traz riscos", afirmou o biólogo responsável pelo monitoramento.
A queda dos filhotes e a força-tarefa de resgate
No início de maio de 2026, moradores e pescadores da região relataram a queda de filhotes de trinta-réis-real no mar, próximo aos pilares da Terceira Ponte. A informação chegou ao IEMA, que acionou o Centro de Triagem de Animais Silvestres (CTA) e o Projeto Aves Vitória. A força-tarefa incluiu biólogos, veterinários e voluntários, que realizaram buscas de barco e monitoramento por drones.
Segundo o IEMA, pelo menos três filhotes foram resgatados com vida e encaminhados ao CTA para reabilitação. Outros dois foram encontrados mortos, provavelmente por afogamento ou trauma da queda. A equipe também instalou uma rede de proteção provisória ao redor do ninho para evitar novas quedas.
Como funciona a reabilitação de aves marinhas?
O CTA realiza exames clínicos para avaliar o estado de saúde dos filhotes. O protocolo inclui hidratação, alimentação controlada com peixes (como sardinha) e fisioterapia para fortalecer os músculos das asas. O período de reabilitação dura, em média, de 30 a 60 dias, até que as aves estejam aptas para voar e se alimentar sozinhas.
Após a reabilitação, os filhotes são soltos em áreas protegidas, como a Ilha do Frade, em Vitória, que possui um banco de areia seguro para a espécie. O IEMA monitora a soltura por anilhamento, técnica que permite identificar cada indivíduo em futuras observações.
O impacto da urbanização nas aves marinhas
A urbanização do litoral capixaba reduziu drasticamente as áreas de reprodução do trinta-réis-real. Praias como Camburi, em Vitória, e a Ilha do Boi, antes usadas pela espécie, hoje são ocupadas por prédios, calçadões e intenso fluxo de pessoas. Dados do IEMA indicam que a população de trinta-réis-real no Espírito Santo caiu 40% nos últimos 20 anos.
A Terceira Ponte não é um caso isolado. Em 2024, um ninho de trinta-réis-real foi registrado em uma plataforma de petróleo na Bacia de Campos, RJ, conforme relatório do Ibama. A espécie busca estruturas artificiais como alternativa, mas a taxa de sucesso reprodutivo é menor do que em habitats naturais.
Limitações da força-tarefa e riscos futuros
A força-tarefa enfrentou desafios: o acesso ao ninho é difícil, exigindo escalada nos pilares e uso de barcos para resgate de filhotes caídos. Além disso, a ponte tem tráfego intenso de veículos, o que gera ruído e poluição. Biólogos alertam que a solução definitiva depende da criação de áreas protegidas em ilhas costeiras, como a Ilha do Frade, e da instalação de plataformas artificiais seguras.
"A força-tarefa salvou vidas, mas não resolve o problema estrutural. Enquanto não houver habitat natural disponível, as aves continuarão buscando locais de risco", afirmou o coordenador do Projeto Aves Vitória.
Como a população pode ajudar na conservação
O IEMA orienta que moradores e turistas que avistarem aves marinhas em locais inadequados ou filhotes caídos entrem em contato pelo telefone 0800-XXX-XXXX ou pelo WhatsApp do CTA. Não se deve tentar resgatar o animal sem orientação, pois o manuseio incorreto pode causar estresse ou lesões.
Outras ações incluem:
- Manter distância de ninhos em praias e estruturas artificiais
- Não alimentar aves com pão ou restos de comida
- Participar de mutirões de limpeza de praias, que reduzem a poluição marinha
- Apoiar ONGs como o Projeto Aves Vitória e o Instituto Baleia Jubarte
Perguntas Frequentes
O trinta-réis-real é a única ave ameaçada que faz ninho em pontes?
Não. Outras espécies, como o gaivota-de-rabo-preto e o atobá-marrom, também utilizam estruturas artificiais. No Brasil, há registros de ninhos em pontes, edifícios e plataformas de petróleo.
Quantos filhotes de trinta-réis-real caíram da Terceira Ponte?
Segundo o IEMA, foram registradas quedas de cinco filhotes. Três foram resgatados com vida, dois morreram.
Qual o período de reprodução do trinta-réis-real no ES?
A reprodução ocorre entre setembro e março, com pico em novembro e dezembro. O ninho na Terceira Ponte foi registrado em maio, o que é atípico, possivelmente devido a mudanças climáticas.
O que fazer se encontrar um filhote de ave marinha caído?
Entre em contato com o IEMA (0800-XXX-XXXX) ou o CTA. Não toque no animal sem luvas, mantenha-o em local seco e arejado, e evite oferecer água ou comida.
Como o IEMA monitora a espécie?
O IEMA realiza censos anuais nas ilhas costeiras e estruturas artificiais. Em 2025, foram contabilizados 120 casais reprodutores no estado, contra 200 em 2005.
A Terceira Ponte será adaptada para evitar novas quedas?
O IEMA e o Departamento de Estradas de Rodagem (DER-ES) estudam a instalação de plataformas de nidificação artificiais nos pilares. Não há previsão de conclusão adaptação de pontes para fauna silvestre.
Qual o papel das ONGs na força-tarefa?
O Projeto Aves Vitória e o Instituto Baleia Jubarte forneceram biólogos, equipamentos (drones, barcos) e suporte logístico. O CTA realizou a reabilitação dos filhotes.