Cabeceios no futebol elevam risco de trauma no cérebro
Cabeceios repetidos no futebol podem provocar alterações na estrutura do cérebro, mesmo sem concussão. Estudos recentes indicam mudanças na substância branca e no desempenho cognitivo, mas ainda não confirmam danos clínicos permanentes. Entenda o que a ciência descobriu até agora.
O que dizem as pesquisas sobre cabeceios e o cérebro
Pesquisas avaliam efeitos de impactos repetidos na cabeça, mas análises ainda carecem de evidências em longo prazo. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em maio na revista Neuroradiology analisou 13 estudos de ressonância magnética em jogadores de futebol. O trabalho concluiu que o cabeceio está associado a mudanças de moderadas a grandes em métricas usadas para avaliar a integridade da substância branca, embora achados metabólicos e estruturais sejam menores, menos consistentes e de significado clínico incerto.
Alterações na substância branca e cinzenta
Parte da produção científica se concentra em exames de imagem que observam especialmente a substância branca, formada por fibras que conectam diferentes áreas do cérebro, e a substância cinzenta, que concentra corpos de neurônios e participa do processamento de informações. Alterações nessas regiões podem indicar mudanças na estrutura ou na comunicação cerebral, mas não significam, por si só, que o atleta terá sintomas ou desenvolverá uma doença neurológica.
Estudo da Universidade Columbia: 352 jogadores analisados
Em estudo apresentado na reunião anual da Sociedade Radiológica da América do Norte em 2024, pesquisadores da Universidade Columbia (EUA) analisaram exames de ressonância magnética de 352 jogadores amadores de futebol - homens e mulheres de 18 a 53 anos - e compararam os resultados aos de 77 atletas de esportes sem colisão, como corredores.
Entre os jogadores que relataram cabecear com mais frequência, foram observadas alterações na substância branca, especialmente em regiões próximas aos sulcos cerebrais e no lobo frontal. Essas mudanças também foram associadas a pior desempenho em testes de aprendizagem verbal.
O mesmo grupo publicou em 2025, na revista JAMA Network Open, uma análise mais detalhada da mesma coorte. Nela, os pesquisadores identificaram a região orbitofrontal - localizada acima das órbitas dos olhos - como a área em que alterações na interface entre substância cinzenta e substância branca ajudariam a explicar a associação entre cabeceios repetidos e pior desempenho em testes de aprendizagem verbal. A pesquisa, porém, não permite afirmar que cabecear a bola cause perda cognitiva ou doenças neurodegenerativas.
Efeitos imediatos: ensaio clínico com 20 cabeceios
Outra linha de pesquisa tenta medir efeitos mais imediatos. Em um ensaio clínico randomizado publicado na Sports Medicine - Open em 2025, jogadores adultos realizaram 20 cabeceios em 20 minutos, em ambiente controlado. Depois do exercício, os autores detectaram alterações sutis em exames de ressonância e aumento de proteínas sanguíneas associadas a células cerebrais. Não houve mudança detectável na função cognitiva, e os participantes relataram poucos sintomas.
O que dizem os especialistas
"As evidências atuais não são conclusivas, mas já parecem suficientes para recomendar medidas de redução de exposição a esse tipo de trauma, especialmente em crianças e adolescentes, como pode ocorrer com o cabeceio", analisa o neurocirurgião Andre Gentil, do Hospital Israelita Albert Einstein.
O risco de trauma craniano varia com a modalidade. Em esportes como futebol americano e boxe, há mais evidências de que concussões repetidas estariam associadas a consequências negativas para o cérebro em longo prazo, embora exista variabilidade individual.
Para Gentil, os estudos sobre cabeceio indicam que a repetição pode produzir efeitos estruturais mensuráveis, mesmo na ausência de concussões diagnosticadas. Isso não quer dizer, no entanto, que os achados devam ser interpretados como prova de dano clínico. "Significa que as vias neurais que conectam diferentes regiões do cérebro apresentam sinais de pequenas alterações detectadas pelo método de ressonância utilizado no estudo", afirma.
Esporte versus sedentarismo
O neurocirurgião ressalta que a prática esportiva é sinônimo de saúde, desenvolvimento físico, mental e social, especialmente na infância. "Me preocupa muito mais que uma criança ou adolescente tenha hábitos sedentários do que praticar futebol e ocasionalmente cabecear a bola", observa o médico.
Recomendações e regras atuais
A relação entre cabeceios, impactos subconcussivos e risco futuro de doenças neurodegenerativas ainda exige estudos longos, capazes de acompanhar atletas por décadas. O maior levantamento em curso sobre esporte e traumas de crânio foi iniciado em 2014 nos Estados Unidos, o NCAA-DOD CARE Consortium, que já recrutou mais de 53.000 atletas universitários e militares jovens.
"Só assim, com estudos prospectivos por décadas acompanhando as consequências dos traumas associados ao esporte, conheceremos melhor suas reais consequências. Antes disso, devemos promover bom senso com as informações disponíveis", declara Gentil.
Enquanto as respostas não chegam, a recomendação é reduzir a exposição repetida a impactos na cabeça, especialmente em crianças e adolescentes. A Fifa tem regras relacionadas a concussões, mas não para cabeceios e subconcussões. "Alguns países já adotaram regras mais rígidas, como proibir cabeceio abaixo de uma certa idade. Cabe a pais, jogadores, técnicos e associações esportivas determinar qual a melhor estratégia", afirma o médico do Einstein.
Perguntas Frequentes
Cabeceios no futebol causam danos cerebrais permanentes?
Estudos mostram alterações na substância branca, mas ainda não há evidências conclusivas de que cabecear cause perda cognitiva ou doenças neurodegenerativas.
Quais regiões do cérebro são mais afetadas?
Pesquisas indicam alterações no lobo frontal e na região orbitofrontal, acima das órbitas dos olhos, associadas a pior desempenho em testes de aprendizagem verbal.
Crianças devem evitar cabeceios?
Especialistas recomendam reduzir a exposição em crianças e adolescentes. Alguns países já proíbem cabeceios abaixo de certa idade.
A Fifa regula cabeceios?
A Fifa tem regras para concussões, mas não para cabeceios e impactos subconcussivos.
Há um estudo de longo prazo em andamento?
Sim, o NCAA-DOD CARE Consortium, iniciado em 2014 nos EUA, já recrutou mais de 53.000 atletas universitários e militares para acompanhamento por décadas.