A morte da professora Valdirene Vaz Clemente, de 42 anos, assassinada pelo ex-marido ao sair de um encontro religioso em Bom Jesus de Goiás, em 20 de julho de 2026, expôs o cenário de violência que coloca Goiás no topo do ranking nacional de feminicídios. Mesmo com medida protetiva, Valdirene foi morta a tiros pelo agressor, que já respondia por ameaça e lesão corporal e depois tirou a própria vida.
Goiás lidera a alta de feminicídios no País e expõe falhas na proteção às mulheres: foram 47 vítimas entre janeiro e junho de 2026, alta de 113,6% em relação ao mesmo período de 2025. Enquanto o Brasil registrou 741 feminicídios no semestre, com redução de 2,5%, o estado goiano foi na contramão, com o maior aumento percentual do país. Além de Goiás, apenas Sergipe, Amazonas, Santa Catarina, Paraná, Amapá, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio Grande do Norte tiveram alta.
O que explica o crescimento dos feminicídios em Goiás
O aumento da violência ocorre paralelamente à maior procura por ajuda. O Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) concedeu 10,7 mil medidas protetivas de urgência entre janeiro e meados de julho de 2026, uma nova proteção judicial a cada 30 minutos. As mulheres contempladas passam a ser acompanhadas pelo Batalhão Maria da Penha.
Mesmo assim, o risco permanece elevado. Segundo a Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP-GO), dos 60 feminicídios registrados em Goiás em 2025, quatro vítimas possuíam acompanhamento do Batalhão Maria da Penha, que realizou mais de dois mil atendimentos no ano.
Rede de proteção sobrecarregada
Para a coordenadora da Ouvidoria da Mulher da Câmara de Goiânia, Maria Clara Dunck, o aumento da procura já indicava, desde o início de 2026, que a situação seria mais grave. O programa Acolha uma Mulher, que oferece atendimento psicológico gratuito por meio de uma rede de voluntárias, enfrenta a maior fila de espera desde sua criação.
Maria Clara afirma que o crescimento da demanda demonstra que mais mulheres reconhecem a violência e buscam apoio, mas evidencia que a estrutura pública não consegue atender todas as solicitações. Órgãos como CRAS, CREAS e o Centro de Referência de Atendimento à Mulher (Cram) operam acima da capacidade por falta de psicólogos, assistentes sociais e equipes multidisciplinares. A coordenadora também aponta a demora na conclusão da Casa da Mulher Brasileira, em Goiânia, como um dos entraves.
Especialistas apontam falhas na efetividade das políticas
O advogado criminalista e professor de Direito Penal Amaury Andrade avalia que o principal desafio não está na criação de novas leis, mas na efetividade das políticas já existentes. Para ele, o Brasil possui uma das legislações mais avançadas no enfrentamento à violência contra a mulher, porém ainda enfrenta dificuldades para garantir proteção às vítimas.
Segundo Andrade, muitas vítimas conseguem denunciar os agressores e obter medidas protetivas, mas permanecem vulneráveis pela demora na resposta do Estado. O advogado defende que casos de violência doméstica sejam tratados como situações de emergência, com maior agilidade na análise dos pedidos, monitoramento constante das medidas judiciais e fortalecimento das patrulhas especializadas. Ele também considera fundamental ampliar o uso de tornozeleiras eletrônicas em agressores, desde que integradas a sistemas capazes de acionar imediatamente as forças de segurança.
Maria Clara Dunck reforça que o enfrentamento ao feminicídio depende da atuação conjunta de segurança, Justiça, assistência social, saúde, educação e habitação. A coordenadora alerta para o déficit de profissionais nas delegacias especializadas, a dificuldade de oferecer atendimento psicológico contínuo e a necessidade de ampliar as Patrulhas Maria da Penha.
O que diz a SSP-GO
Em nota, a Secretaria de Estado da Segurança Pública de Goiás (SSP-GO) informou que o enfrentamento à violência contra a mulher permanece entre as prioridades das forças de segurança. A pasta destacou a realização de operações permanentes de combate à violência doméstica, o cumprimento de mandados de prisão contra agressores, o acompanhamento de medidas protetivas, ações preventivas e educativas, além da atuação integrada com o Poder Judiciário, o Ministério Público e a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social. A secretaria afirmou que todas as ocorrências são investigadas e que continuará intensificando as ações de prevenção, repressão qualificada e proteção às mulheres.
Perguntas Frequentes
Quantos feminicídios Goiás registrou no primeiro semestre de 2026?
Foram 47 feminicídios entre janeiro e junho de 2026, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Qual foi o aumento percentual de feminicídios em Goiás?
O crescimento foi de 113,6% em relação ao mesmo período de 2025, o maior aumento percentual do país.
Quantas medidas protetivas foram concedidas em Goiás em 2026?
O TJGO concedeu 10,7 mil medidas protetivas de urgência entre janeiro e meados de julho de 2026.
O que é o Batalhão Maria da Penha?
É a unidade da Polícia Militar de Goiás que acompanha mulheres com medidas protetivas. Em 2025, realizou mais de dois mil atendimentos.
Por que a rede de proteção está sobrecarregada?
Segundo a coordenadora Maria Clara Dunck, falta psicólogos, assistentes sociais e equipes multidisciplinares em órgãos como CRAS, CREAS e Cram, além da demora na conclusão da Casa da Mulher Brasileira em Goiânia.