O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), defendeu que o Brasil adote o princípio da reciprocidade nas relações comerciais com os Estados Unidos, após o governo americano anunciar novas tarifas sobre produtos brasileiros. A declaração foi feita em discurso na Câmara, onde Motta cobrou uma resposta proporcional do Brasil para proteger a indústria nacional e equilibrar a balança comercial.
A fala de Motta ocorre em um momento de tensão comercial: os Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump, impuseram tarifas de 25% sobre o aço e o alumínio brasileiros, além de sobretaxas para outros produtos. O Brasil, por sua vez, estuda elevar tarifas sobre importações americanas, como forma de pressionar Washington a reverter as medidas.
Por que Hugo Motta defende a reciprocidade?
Motta argumenta que o Brasil não pode aceitar passivamente as barreiras impostas pelos EUA. "Precisamos usar o princípio da reciprocidade: se eles taxam nossos produtos, taxaremos os deles na mesma proporção", disse o deputado em plenário. Para ele, a medida é uma forma de defender a competitividade da indústria brasileira e evitar que o país seja tratado de forma desigual.
A reciprocidade é um instrumento previsto nas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), que permite que um país eleve tarifas como resposta a barreiras impostas por outro. No entanto, especialistas alertam que a escalada tarifária pode prejudicar ambos os lados, especialmente em setores como o agronegócio e a indústria automotiva.
O que está em jogo na relação comercial?
Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China. Em 2025, o fluxo de comércio bilateral somou cerca de US$ 75 bilhões, com superávit brasileiro de US$ 12 bilhões. Os principais produtos exportados pelo Brasil aos EUA são aço, alumínio, carne bovina, café e suco de laranja.
Com as novas tarifas americanas, estima-se que as exportações brasileiras de aço e alumínio possam cair até 30% nos próximos meses, afetando diretamente estados como Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. A indústria siderúrgica nacional já sinalizou que pode reduzir produção e demitir funcionários caso as barreiras não sejam revertidas.
Como o Congresso pode reagir?
Hugo Motta afirmou que a Câmara está disposta a aprovar projetos que autorizem o governo a retaliar comercialmente os EUA. Uma das propostas em estudo é a criação de uma lista de produtos americanos que poderiam ter tarifas elevadas, como soja, milho, algodão e carne suína.
O deputado também defendeu que o Brasil acione a OMC para questionar as tarifas americanas. "Não podemos ficar de braços cruzados. Vamos usar todos os instrumentos legais e diplomáticos para defender nossos interesses", completou Motta.
O papel do governo federal
O governo Lula, por meio do Ministério das Relações Exteriores, já anunciou que estuda as medidas de retaliação. O chanceler Mauro Vieira disse que o Brasil buscará um diálogo com os EUA antes de adotar qualquer ação, mas não descartou a reciprocidade como ferramenta.
O presidente Lula, por sua vez, tem evitado confronto direto com Trump, mas a pressão do Congresso e de setores industriais pode forçar uma posição mais dura. A questão também divide a base governista: parte dos parlamentares defende negociação, enquanto outros, como Motta, pregam retaliação imediata.
Impactos para o consumidor brasileiro
Se o Brasil elevar tarifas sobre produtos americanos, o consumidor brasileiro pode sentir no bolso. Itens como eletrônicos, medicamentos e insumos agrícolas importados dos EUA podem ficar mais caros. Por outro lado, a medida pode estimular a produção nacional em setores como o de aço e alumínio.
Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que o impacto inflacionário seria limitado, mas que setores como o de tecnologia e saúde podem ser mais afetados. A indústria farmacêutica, por exemplo, importa insumos dos EUA para a produção de medicamentos no Brasil.
O que dizem os especialistas
Para o economista Paulo Gala, professor da FGV, a reciprocidade é um instrumento legítimo, mas deve ser usada com cautela. "O Brasil tem mais a perder do que ganhar com uma guerra comercial. Precisamos de uma estratégia inteligente, que combine negociação e pressão", afirmou.
Já a Confederação Nacional da Indústria (CNI) defende que o governo busque acordos setoriais com os EUA, evitando uma escalada tarifária. "A indústria brasileira precisa de competitividade, não de barreiras", disse o presidente da CNI, Ricardo Alban.
Alternativas à retaliação
Além da reciprocidade, o Brasil pode adotar outras medidas para pressionar os EUA, como:
- Ações na OMC questionando as tarifas americanas
- Acordos comerciais com outros países, como a União Europeia e a China
- Incentivos à produção nacional de insumos hoje importados dos EUA
- Subsídios para setores mais afetados, como o siderúrgico
O que esperar dos próximos meses?
A expectativa é de que o governo brasileiro anuncie as medidas de retaliação nas próximas semanas, após concluir as análises técnicas. O Congresso deve acelerar a votação de projetos que autorizam a reciprocidade, enquanto a diplomacia brasileira tenta um diálogo com Washington.
Hugo Motta, que já sinalizou que pode pautar os projetos ainda em maio, afirmou que a Câmara está unida em defesa dos interesses nacionais. "Não vamos recuar. O Brasil tem que ser respeitado", concluiu.
Perguntas Frequentes
O que é o princípio da reciprocidade no comércio internacional?
É a prática de um país aplicar tarifas ou barreiras equivalentes às impostas por outro país, como forma de equilibrar as relações comerciais. A OMC permite a reciprocidade em casos de discriminação comercial.
Quais produtos brasileiros são mais afetados pelas tarifas dos EUA?
Os principais são aço, alumínio, carne bovina, café, suco de laranja e etanol. As tarifas americanas podem reduzir as exportações desses produtos em até 30%.
O Brasil pode retaliar sem prejudicar a economia?
Especialistas alertam que a retaliação pode encarecer produtos importados dos EUA, como eletrônicos e medicamentos, mas o impacto inflacionário seria limitado. O ideal é buscar um acordo negociado.
Qual o papel da Câmara dos Deputados nessa questão?
A Câmara pode aprovar projetos que autorizem o governo a elevar tarifas sobre produtos americanos, além de pressionar o Executivo a adotar medidas de defesa comercial. Hugo Motta é o principal articulador dessa pauta.
Como a indústria brasileira reage às tarifas?
A indústria siderúrgica e a CNI defendem que o governo negocie com os EUA, mas também cobram medidas de proteção para evitar demissões e perda de competitividade.