Mais de 200 mil continuam sem energia no Rio após vendaval
O que acontece quando um vendaval derruba mais de 300 árvores e corta a luz de mais de um milhão de pessoas em menos de 24 horas? No Rio de Janeiro, a resposta apareceu na manhã de quinta-feira (30): cerca de 279 mil clientes da concessionária de energia Light ainda estavam sem fornecimento, segundo a própria empresa. O número representa residências e estabelecimentos comerciais que passaram a madrugada no escuro, sem prazo certo para o retorno.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) monitora a situação. O temporal que atingiu a Região Metropolitana do Rio na quarta-feira (29) deixou rastros que vão muito além da falta de luz: árvores caídas, trens parados, um muro que matou duas pessoas e uma investigação sobre três mortes por descarga elétrica.
Onde a energia ainda não voltou
A distribuição dos afetados não é uniforme. Na capital, os bairros com maior número de clientes sem luz são Campo Grande, Bangu, Anchieta, Tijuca, Catumbi, Jacarepaguá, Santa Cruz e Recreio. Na Baixada Fluminense, os municípios com trechos mais atingidos são Nova Iguaçu e Duque de Caxias.
A Light explica que, em diversos pontos, a extensão dos danos exige a reconstrução de trechos da rede elétrica. Isso significa substituir postes danificados, reparar estruturas comprometidas e remover árvores que caíram ou continuam apoiadas sobre a fiação. O trabalho é mais lento do que um reparo simples, porque envolve reerguer a infraestrutura do zero em alguns locais.
O esforço para restabelecer o serviço
A concessionária afirma que reforçou seu plano operacional. São 800 equipes nas ruas, com mais de 2 mil profissionais dedicados à reconstrução da rede. O número impressiona, mas o cenário que elas enfrentam também.
No momento mais crítico, a falta de fornecimento chegou a afetar 1,1 milhão de clientes no Grande Rio. Para dimensionar: isso inclui residências, lojas, hospitais e outros estabelecimentos que dependem de eletricidade para funcionar. A queda foi drástica, e a recuperação, gradual.
A força do vento em números
O vendaval não foi um evento comum. Chegou a 346 o número total de árvores derrubadas pela força do vento, que ultrapassou os 100 km/h. O maior registro foi no Aeroporto Internacional do Galeão, na Ilha do Governador, onde as rajadas atingiram 105,5 km/h, entre 16h e 17h de quarta-feira.
Por volta das 19h de quinta, a Prefeitura do Rio ainda trabalhava na remoção de mais de 49 árvores que caíram. Ou seja, mesmo depois de mais de um dia, parte da cidade seguia com obstáculos nas vias.
Transporte: o caos e a recuperação
A ventania paralisou completamente a circulação de trens, o que dificultou a volta para casa de moradores da Baixada Fluminense e das zonas Oeste e Norte da capital. Na quinta-feira, a concessionária Trens RJ informou que o ramal Japeri continua com a circulação interrompida. A estação Saracuruna está em processo de vistoria para ser reaberta. Já os ramais Santa Cruz, Deodoro e Belford Roxo estão funcionando.
O VLT, que liga o centro à zona portuária, também sofreu. As linhas 1, 2, 3 e 4 foram normalizadas nesta quinta, depois que mais de uma tonelada de lixo foi retirada dos trilhos, incluindo árvores, galhos e resíduos. O número dá a medida do estrago: não foi um galho aqui e outro ali, foi uma tonelada de material.
Outros meios de transporte, como BRT, ônibus urbanos, Metrô e o Serviço de Barcas, que faz a travessia pela Baía de Guanabara, operam com intervalos regulares.
O lado mais trágico do temporal
Nem todo impacto foi material. A força do vento derrubou um muro que atingiu e matou dois homens em Santa Teresa, na região central da cidade. A Polícia Civil investiga ainda se a morte de três pessoas por descarga elétrica dentro de uma residência na Cidade de Deus, na noite de quarta, tem relação com o vendaval. A palavra "investiga" é importante: ainda não há conclusão oficial sobre a causa.
O tempo que vem pela frente
De acordo com o Sistema Alerta Rio, a previsão para a noite de quinta-feira é de céu nublado a parcialmente nublado, com chuva fraca isolada e ventos moderados. Ao longo do dia, ventos úmidos vindos do oceano influenciaram o tempo, que teve céu parcialmente nublado, mas sem registro de chuva.
As temperaturas apresentaram declínio em relação ao dia anterior, com mínima de 16,8°C e máxima de 27,9°C. A trégua, porém, não se estende a toda a região.
Angra dos Reis, na Costa Verde fluminense, permanece em alerta após rajadas de até 104 km/h na tarde de quarta, de acordo com a Defesa Civil municipal. Houve queda de árvores em diferentes pontos da cidade, incluindo trechos da BR-101 (Rodovia Rio-Santos). O Serviço de Pronto Atendimento da Vila do Abraão, na Ilha Grande, registrou cinco atendimentos: duas vítimas do naufrágio de um taxiboat, na Baía da Ilha Grande, e três moradores da Vila. Todos já foram liberados, sem vítimas fatais.
O que ainda falta provar
A promessa de normalização esbarra em uma realidade complexa. A Light prometeu reforço, mas não deu prazo para o retorno total. A Aneel monitora, mas não anunciou medidas punitivas. A Polícia Civil investiga, mas não concluiu. Em um evento dessa magnitude, a pergunta certa não é apenas quando a luz volta, mas o que será feito para que a rede aguente o próximo vendaval. A resposta ainda não veio.
Perguntas Frequentes
Quantos clientes da Light estão sem energia no Rio?
Cerca de 279 mil clientes da Light seguiam sem fornecimento na manhã de quinta-feira (30), segundo a concessionária. No pico, o número chegou a 1,1 milhão.
Quais bairros são os mais afetados pela falta de luz?
Na capital, Campo Grande, Bangu, Anchieta, Tijuca, Catumbi, Jacarepaguá, Santa Cruz e Recreio. Na Baixada, Nova Iguaçu e Duque de Caxias.
A Aneel está monitorando a situação?
Sim. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) monitora a situação no Rio de Janeiro.
O transporte de trens voltou ao normal?
Não totalmente. O ramal Japeri segue interrompido, e a estação Saracuruna está em vistoria. Os ramais Santa Cruz, Deodoro e Belford Roxo funcionam.
Houve mortes relacionadas ao vendaval?
Dois homens morreram após a queda de um muro em Santa Teresa. A Polícia Civil investiga se três mortes por descarga elétrica na Cidade de Deus têm relação com o temporal.