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Quanto mais sabemos, menos sabemos: arqueologia derruba paradigma Clóvis

ResumoO paradigma Clóvis, que sustentava a chegada dos primeiros americanos há 13 mil anos, foi refutado por evidências arqueológicas como o sítio de Monte Verde, no Chile, datado de 14,5 mil anos. A descoberta reabriu o debate sobre múltiplas ondas migratórias e rotas alternativas de ocupação do continente americano.

O paradigma Clóvis, que por décadas defendeu que os primeiros americanos chegaram há 13 mil anos, foi derrubado por evidências como o sítio de Monte Verde, no Chile, datado de 14,5 mil anos. A descoberta reabriu o debate sobre múltiplas ondas de ocupação e rotas alternativas, com

Otávio Bensaúde
Quanto mais sabemos, menos sabemos: arqueologia derruba paradigma Clóvis

Quanto mais sabemos, menos sabemos: arqueologia derruba paradigma Clóvis — Foto: Reprodução / Bombou na Web

O que o sítio de Monte Verde revelou sobre a ocupação das Américas

Por décadas, a arqueologia sustentou o chamado "Paradigma de Clóvis", segundo o qual os primeiros americanos teriam chegado pelo corredor de terra entre a Sibéria e o Alasca, a Beríngia, há cerca de 13 mil anos. A descoberta do sítio de Monte Verde, na Patagônia chilena, a partir de 1977, mudou esse quadro.

Escavado pelo arqueólogo Tom Dillehay, da Universidade Vanderbilt, o sítio revelou estruturas de madeira, restos de plantas alimentares, ferramentas de pedra e ossos de mastodonte, tudo preservado pela turfa úmida. As datações iniciais situaram Monte Verde em torno de 14.500 anos antes do presente, mil anos antes de Clóvis e a mais de 15 mil quilômetros de qualquer possível ponto de entrada pelo norte.

A recepção inicial foi hostil. Dillehay foi questionado, seus métodos contestados, suas interpretações minimizadas. Em 1997, um grupo de arqueólogos céticos visitou o sítio para uma avaliação in loco. O resultado foi uma espécie de rendição coletiva: Monte Verde era real, as datações sólidas, e o paradigma Clóvis se viu em sério aperto. O grupo publicou uma avaliação positiva no periódico American Antiquity, e o campo nunca mais foi o mesmo.

O que mudou com a derrubada do paradigma Clóvis

Hoje, fala-se em múltiplas ondas de ocupação, provavelmente por diferentes rotas. A ocupação das Américas é um campo bem mais aberto e cheio de buracos do que o paradigma de Clóvis desejava. Ganhou força sobretudo a ideia de uma rota pela costa do Pacífico, batizada de "Rodovia das Algas".

Segundo essa hipótese, grupos humanos já adaptados a ambientes costeiros e capazes de navegar em embarcações simples desceram rapidamente pela costa do Pacífico americano, aproveitando os ricos ecossistemas de algas marinhas que se estendiam da costa da Ásia até a América do Sul. Essa rota não exigia o corredor terrestre de Mackenzie, que só se tornou habitável por volta de 13 mil anos antes do presente, e sugeria deslocamentos muito mais rápidos que qualquer migração terrestre interior.

Sítios brasileiros reabilitados após a queda do paradigma

Com a derrubada de Clóvis, sítios antes olhados com desdém e ceticismo foram reabilitados. É o caso, no Brasil, dos sítios da Serra da Capivara, no Piauí, com datações de vestígios que remontam há pelo menos 22 mil anos, e o de Santa Elina, no Mato Grosso, com vestígios de ferramentas de pedras em camadas datadas entre 27 mil e 25 mil anos.

Os próprios vestígios mais antigos de Serranópolis, no sudoeste goiano, com cerca de 12 mil anos, não eram levados a sério pelo mainstream da arqueologia enquanto o paradigma permaneceu de pé, afinal, eram praticamente contemporâneos desses povos considerados o ancestral comum de todos os americanos originários.

O que Serranópolis revela sobre a ocupação do Brasil

Serranópolis é uma das províncias arqueológicas mais importantes do Brasil. Os abrigos rochosos formados sobre os arenitos mesozoicos da borda da Bacia Sedimentar do Paraná guardam registros fundamentais da ocupação humana na América do Sul: pinturas rupestres e restos de culturas da pedra lascada, pedra polida e de tradições ceramistas mais recentes.

A riqueza dos sítios de Serranópolis se desdobra em duas direções: guardam testemunhos de quatro fases distintas de ocupação sobrepostas e oferecem pistas para os caminhos da adaptação humana em um ambiente em progressiva transformação após o fim da última grande glaciação.

Os achados mais antigos incluem um esqueleto humano, apelidado de "Zé Gabiroba", ou mais formalmente de "Homem da Serra do Cafezal", um dos esqueletos humanos mais antigos da América do Sul, com datação de quase 12 mil anos. Esse indivíduo fez parte da primeira fase de ocupação da região, dentro da chamada Tradição Itaparica, que habitou o Cerrado em uma fase bem mais seca e fria, cerca de 3 a 4 graus em média, convivendo possivelmente com os últimos representantes da megafauna do Pleistoceno, especialmente preguiças-gigantes, gliptodontes e mastodontes.

O que esperar dos próximos estudos

A reorganização climática não gerou aumento imediato de umidade. Ao contrário, a aridez na região se intensificou até cerca de 8 a 5 mil anos antes do presente. Com isso e uma provável diminuição da caça disponível, os caçadores-coletores que ocuparam a região se adaptaram a uma dieta que tinha como elemento importante moluscos bivalves que abundavam nos rios da região. Essa é a cultura da chamada Tradição Serranópolis. Estima-se que o Cerrado tenha se estabilizado ambientalmente em sua forma e extensão atual somente por volta de 5 mil anos atrás.

O campo da arqueologia, agora mais aberto, promete novas descobertas que podem reescrever a história da ocupação das Américas. A cada novo sítio, a frase "quanto mais sabemos, menos sabemos" se confirma.

Perguntas Frequentes

O que é o paradigma Clóvis?

É a teoria que defendia que os primeiros americanos chegaram pela Beríngia há cerca de 13 mil anos, espalhando-se rapidamente pelo continente.

Quem descobriu o sítio de Monte Verde?

O sítio foi descoberto e escavado a partir de 1977 por Tom Dillehay, arqueólogo norte-americano da Universidade Vanderbilt.

Por que Monte Verde derrubou o paradigma Clóvis?

Porque as datações do sítio, de 14,5 mil anos, são anteriores a Clóvis e estão na Patagônia, a mais de 15 mil quilômetros de qualquer ponto de entrada pelo norte.

O que é a "Rodovia das Algas"?

É uma hipótese de rota de migração pela costa do Pacífico, aproveitando ecossistemas de algas marinhas, que não exigia o corredor terrestre de Mackenzie.

Quais sítios brasileiros foram reabilitados?

Os sítios da Serra da Capivara (Piauí), com datações de até 22 mil anos, e Santa Elina (Mato Grosso), com datações entre 27 mil e 25 mil anos.

O que é o "Homem da Serra do Cafezal"?

É um esqueleto humano encontrado em Serranópolis, apelidado de "Zé Gabiroba", com cerca de 12 mil anos, um dos mais antigos da América do Sul.

Otávio Bensaúde

Editoria Curiosidades

Otávio Bensaúde cobre o setor de meios de pagamento e crédito no Bombou na Web. Análises técnicas, sem viés comercial.

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