Talvez você já tenha notado: os números de roubo de cargas estão caindo, mas a sensação de insegurança no setor não diminui na mesma proporção. É que, por trás da estatística, há uma mudança silenciosa na atuação das quadrilhas.
O Brasil registrou 8.570 ocorrências de roubo de cargas em 2025, redução de 16,7% em relação ao ano anterior, segundo o Mapa da Segurança Pública 2026. O prejuízo direto, no entanto, permaneceu elevado: cerca de R$ 900 milhões.
O que mudou no perfil dos crimes
Em vez de grandes volumes de mercadorias de menor valor, as quadrilhas passaram a concentrar as ações em cargas de maior rentabilidade, especialmente medicamentos. Os medicamentos responderam por 22,3% dos prejuízos registrados pelo setor em 2026, ante 1,7% no primeiro trimestre de 2025. Produtos de alto valor agregado, como medicamentos oncológicos e imunossupressores, se tornaram alvos frequentes. No Rio de Janeiro, algumas empresas passaram a transportar medicamentos em carros-fortes, modalidade antes usada para dinheiro e ouro.
Goiás: um dos destaques na redução
Em Goiás, os registros caíram de 23 casos em 2024 para 10 em 2025, redução de 56,52%, uma das maiores do País, atrás apenas do Distrito Federal, Rio Grande do Norte e Alagoas. O governo estadual atribui os resultados aos investimentos superiores a R$ 124,7 milhões na modernização das forças de segurança, incluindo polícias Militar, Civil e Científica, além da ampliação do uso de inteligência e tecnologia.
Entre as iniciativas adotadas está o programa IA Contra o Crime, que utiliza inteligência artificial para reconhecimento de placas e monitoramento por vídeo. Em cinco meses, a ferramenta auxiliou no esclarecimento de mais de 1,4 mil ocorrências.
Segundo o governador Daniel Vilela, a estratégia é baseada na integração entre inteligência policial e tecnologia. O Estado também permanece há mais de quatro anos sem registrar ataques a instituições financeiras e apresenta a menor taxa de roubo de veículos do País.
O papel do setor privado
Especialistas apontam que a redução também está relacionada ao avanço das estratégias de gerenciamento de riscos adotadas por transportadoras. O setor privado ampliou investimentos em monitoramento em tempo real, inteligência embarcada e análise preditiva, evitando dezenas de milhões de reais em prejuízos nos primeiros meses de 2026. A avaliação reforça que o enfrentamento ao roubo de cargas depende tanto do poder público quanto da iniciativa privada.
Desafios e nova legislação
No campo institucional, a Lei nº 15.358/2026, que instituiu o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, criou novos mecanismos para combater a receptação de cargas, considerada um dos principais fatores de sustentação econômica desse tipo de crime.
Ainda assim, o cenário permanece desafiador. No Rio de Janeiro, as ocorrências cresceram 19% na Capital em 2026, evidenciando diferenças regionais. As organizações criminosas adaptaram a forma de atuação, concentrando esforços em operações mais seletivas e de maior retorno financeiro.
Perguntas Frequentes
Por que o roubo de cargas caiu mas o prejuízo continua alto?
Porque as quadrilhas passaram a mirar cargas de maior valor agregado, como medicamentos, que geram prejuízos maiores mesmo com menos ocorrências.
Quais estados tiveram as maiores reduções?
Goiás teve queda de 56,52%, atrás apenas do Distrito Federal, Rio Grande do Norte e Alagoas.
Como a tecnologia ajudou na redução dos roubos?
Com programas como o IA Contra o Crime, que usa reconhecimento de placas e monitoramento por vídeo, além de investimentos privados em rastreamento em tempo real.
O que mudou no perfil das cargas roubadas?
As quadrilhas passaram a focar em medicamentos, especialmente oncológicos e imunossupressores, que representam 22,3% dos prejuízos.
A nova lei ajuda no combate?
Sim, a Lei nº 15.358/2026 criou mecanismos para combater a receptação de cargas, um dos pilares do crime organizado.