# Sumba, a ilha paradisíaca onde homens e mulheres vivem como escravizados

> Sumba, ilha indonésia a duas horas de Bali, mantém um sistema de escravidão hereditária onde homens e mulheres nascem e morrem como servos sem salário. A prática persiste apesar da abolição pela Indonésia em 1860, enraizada na tradição cultural local.

*Bombou na Web · Curiosidades · 22 de julho de 2026 · Kelly Nascimento*

A duas horas de avião de Bali, a ilha de Sumba mantém um sistema de escravidão hereditária. Homens e mulheres nascem e morrem como servos, sem salário, sob o peso da tradição. A Indonésia aboliu a prática em 1860, mas ela persiste, enraizada na cultura local.

Imagine uma ilha de cachoeiras e cavalos selvagens, a apenas duas horas de avião de Bali. Um paraíso turístico, à primeira vista. Mas, em Sumba, a paisagem esconde uma realidade que parece congelada no tempo: homens e mulheres vivem como escravizados do nascimento à morte, sem salário, passados como herança de geração em geração.

Em Sumba, a escravidão remonta ao século XVI, segundo historiadores. A Indonésia a aboliu oficialmente em 1860, quando o país estava sob domínio holandês, mas ela permanece profundamente enraizada na cultura local, especialmente no leste da ilha. A ilha tem 685.000 habitantes, dos quais 80% são cristãos em um país predominantemente muçulmano.

A sociedade está dividida em três castas: "os nobres, chamados maramba, geralmente grandes proprietários de terras; o povo comum, chamado kabihu; e os escravizados ou servos, os atas", explica Martha Hebi, especialista no assunto. A menos que seja libertado pelo senhor, o escravizado "não pode perder sua condição, nem mesmo por meio do casamento", acrescenta ela.

## Como funciona o sistema de castas em Sumba

Os marambas são donos da terra, do gado e dos cavalos que criam para corridas antes de exportá-los. Estes, juntamente com os escravizados, constituem sua principal renda. Os atas trabalham da manhã à noite, cultivando os campos, que aram com búfalos d'água, e cuidando da casa, das crianças e dos animais. O tratamento que recebem depende do senhor a quem são designados.

Kanisius Kanyali Hambarita, de 34 anos, é escravizado por Umbu Ana Rara, três anos mais novo que ele. Eles vivem na aldeia de Tengeddu, a 50 km de Waingapu, a principal cidade de Sumba. Em uma manhã de junho, os dois homens mascam noz de betel, conhecida por seus efeitos eufóricos, sentados em frente à casa do senhor. Eles vestem camisetas e sarongues, moram na mesma casa, onde criam galinhas e porcos e cozinham com lenha. Ambos dormem no mesmo tipo de esteira no chão e nenhum dos dois tem sinal de celular.

Umbu Ana Rara diz que trata seu escravizado "como um membro da família". Ele permite que o escravizado ganhe um pouco de dinheiro como mototaxista e lhe confia um pedaço de terra que ele cultiva para seu próprio sustento. "Não me oponho a isso, é assim que as coisas são. Não é um fardo. Não é nada mais do que o símbolo de uma tradição herdada de nossos ancestrais", diz à AFP.

## A tradição marapu e a escravidão hereditária

A escravidão está ligada ao marapu, uma religião local que combina animismo, culto aos ancestrais e o mundo espiritual, explicou Umbu Remi Deta, sacerdote dessa crença ancestral. Diz a lenda que "os marambas obtiveram os atas ao chegarem a Sumba".

Uma assistente social, que pediu para permanecer anônima, estima que haja "cerca de 1.700" escravizados no distrito de Sumba Oriental, que tem 350.000 habitantes. Outros estimam que sejam milhares.

## Violência e impunidade

Os escravizados sofrem "não só violência física, mas também sexual. Porque, segundo a tradição, o senhor tem o direito, entre aspas, de 'usar' sua serva", confirma Marlin Lomi, pastora e presidente do sínodo protestante de Sumba Oriental. "Relações sexuais não são consideradas estupro. Segundo eles, é simplesmente uma questão de exercer autoridade sobre o que lhes pertence", lembra Andy Yentriyani, ex-presidente da Comissão Nacional contra a Violência contra a Mulher (Komnas Perempuan).

Em 2024, uma escravizada de 18 anos, estuprada desde os 13 pelo senhor e o filho dele, engravidou e deu à luz antes de denunciar os agressores à polícia de Waingapu. Segundo a imprensa local, o principal suspeito e outras dez pessoas foram interrogadas. Dois anos depois, "a investigação ainda não terminou", disse à AFP Dian Sasmita, membro da Comissão Indonésia para a Proteção da Infância (KPAI).

## A lei e a tradição: um conflito sem solução

De acordo com a Constituição de 1945, "ninguém pode ser submetido à escravidão ou servidão", e o Código Penal criminaliza "qualquer pessoa que, de forma intencional e ilegal, prive outra de sua liberdade". Mas, ao mesmo tempo, o código estabelece que o Estado reconhece certas formas de direito consuetudinário.

"É preciso entender que a Indonésia é uma sociedade extremamente plural e que o desenvolvimento social não é o mesmo para todos os grupos étnicos", disse o ministro da Justiça e dos Direitos Humanos, Yusril Ihza Mahendra, à AFP. "O governo não quer impor mudanças abruptas, mas sim acompanhar o desenvolvimento social."

O sistema está profundamente enraizado e a pressão da elite local é tão forte que "mudar a mentalidade dos nobres exigirá um longo processo", reconhece Gidion Mbilijora, ex-chefe do distrito de Waingapu (de 2008 a 2021). Ele tem "dois atas".

## Perguntas Frequentes

### Onde fica a ilha de Sumba?

Sumba está localizada na Indonésia, a 2.000 km de Jacarta e a 1.000 km de Bali, a duas horas de avião das praias balinesas.

### Quantos escravizados existem em Sumba?

Uma assistente social estima que haja "cerca de 1.700" no distrito de Sumba Oriental, que tem 350.000 habitantes. Outros estimam que sejam milhares.

### Por que a escravidão persiste em Sumba?

A escravidão está ligada ao marapu, uma religião local que combina animismo e culto aos ancestrais, e à tradição de castas que divide a sociedade entre nobres (maramba) e escravizados (atas).

### O que diz a lei indonésia sobre a escravidão?

A Constituição de 1945 proíbe a escravidão, e o Código Penal criminaliza a privação de liberdade. No entanto, o Estado reconhece certas formas de direito consuetudinário, criando um conflito entre a lei e a tradição.

### Como as vítimas podem denunciar os abusos?

Segundo o pastor Marlin Lomi, o sínodo protestante de Sumba Oriental "ajuda as vítimas" desde que denunciem o abuso. A ONG Solidariedade para Mulheres e Crianças de Sumba (Sopan), fundada por Martha Hebi, também oferece apoio.

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Fonte (canonical): https://www.bombounaweb.com.br/curiosidades/sumba-ilha-paradisiaca-onde-homens-mulheres-vivem-como-escravizados/
