Imagine uma ilha de cachoeiras e cavalos selvagens, a apenas duas horas de avião de Bali. Um paraíso turístico, à primeira vista. Mas, em Sumba, a paisagem esconde uma realidade que parece congelada no tempo: homens e mulheres vivem como escravizados do nascimento à morte, sem salário, passados como herança de geração em geração.
Em Sumba, a escravidão remonta ao século XVI, segundo historiadores. A Indonésia a aboliu oficialmente em 1860, quando o país estava sob domínio holandês, mas ela permanece profundamente enraizada na cultura local, especialmente no leste da ilha. A ilha tem 685.000 habitantes, dos quais 80% são cristãos em um país predominantemente muçulmano.
A sociedade está dividida em três castas: "os nobres, chamados maramba, geralmente grandes proprietários de terras; o povo comum, chamado kabihu; e os escravizados ou servos, os atas", explica Martha Hebi, especialista no assunto. A menos que seja libertado pelo senhor, o escravizado "não pode perder sua condição, nem mesmo por meio do casamento", acrescenta ela.
Como funciona o sistema de castas em Sumba
Os marambas são donos da terra, do gado e dos cavalos que criam para corridas antes de exportá-los. Estes, juntamente com os escravizados, constituem sua principal renda. Os atas trabalham da manhã à noite, cultivando os campos, que aram com búfalos d'água, e cuidando da casa, das crianças e dos animais. O tratamento que recebem depende do senhor a quem são designados.
Kanisius Kanyali Hambarita, de 34 anos, é escravizado por Umbu Ana Rara, três anos mais novo que ele. Eles vivem na aldeia de Tengeddu, a 50 km de Waingapu, a principal cidade de Sumba. Em uma manhã de junho, os dois homens mascam noz de betel, conhecida por seus efeitos eufóricos, sentados em frente à casa do senhor. Eles vestem camisetas e sarongues, moram na mesma casa, onde criam galinhas e porcos e cozinham com lenha. Ambos dormem no mesmo tipo de esteira no chão e nenhum dos dois tem sinal de celular.
Umbu Ana Rara diz que trata seu escravizado "como um membro da família". Ele permite que o escravizado ganhe um pouco de dinheiro como mototaxista e lhe confia um pedaço de terra que ele cultiva para seu próprio sustento. "Não me oponho a isso, é assim que as coisas são. Não é um fardo. Não é nada mais do que o símbolo de uma tradição herdada de nossos ancestrais", diz à AFP.
A tradição marapu e a escravidão hereditária
A escravidão está ligada ao marapu, uma religião local que combina animismo, culto aos ancestrais e o mundo espiritual, explicou Umbu Remi Deta, sacerdote dessa crença ancestral. Diz a lenda que "os marambas obtiveram os atas ao chegarem a Sumba".
Uma assistente social, que pediu para permanecer anônima, estima que haja "cerca de 1.700" escravizados no distrito de Sumba Oriental, que tem 350.000 habitantes. Outros estimam que sejam milhares.
Violência e impunidade
Os escravizados sofrem "não só violência física, mas também sexual. Porque, segundo a tradição, o senhor tem o direito, entre aspas, de 'usar' sua serva", confirma Marlin Lomi, pastora e presidente do sínodo protestante de Sumba Oriental. "Relações sexuais não são consideradas estupro. Segundo eles, é simplesmente uma questão de exercer autoridade sobre o que lhes pertence", lembra Andy Yentriyani, ex-presidente da Comissão Nacional contra a Violência contra a Mulher (Komnas Perempuan).
Em 2024, uma escravizada de 18 anos, estuprada desde os 13 pelo senhor e o filho dele, engravidou e deu à luz antes de denunciar os agressores à polícia de Waingapu. Segundo a imprensa local, o principal suspeito e outras dez pessoas foram interrogadas. Dois anos depois, "a investigação ainda não terminou", disse à AFP Dian Sasmita, membro da Comissão Indonésia para a Proteção da Infância (KPAI).
A lei e a tradição: um conflito sem solução
De acordo com a Constituição de 1945, "ninguém pode ser submetido à escravidão ou servidão", e o Código Penal criminaliza "qualquer pessoa que, de forma intencional e ilegal, prive outra de sua liberdade". Mas, ao mesmo tempo, o código estabelece que o Estado reconhece certas formas de direito consuetudinário.
"É preciso entender que a Indonésia é uma sociedade extremamente plural e que o desenvolvimento social não é o mesmo para todos os grupos étnicos", disse o ministro da Justiça e dos Direitos Humanos, Yusril Ihza Mahendra, à AFP. "O governo não quer impor mudanças abruptas, mas sim acompanhar o desenvolvimento social."
O sistema está profundamente enraizado e a pressão da elite local é tão forte que "mudar a mentalidade dos nobres exigirá um longo processo", reconhece Gidion Mbilijora, ex-chefe do distrito de Waingapu (de 2008 a 2021). Ele tem "dois atas".
Perguntas Frequentes
Onde fica a ilha de Sumba?
Sumba está localizada na Indonésia, a 2.000 km de Jacarta e a 1.000 km de Bali, a duas horas de avião das praias balinesas.
Quantos escravizados existem em Sumba?
Uma assistente social estima que haja "cerca de 1.700" no distrito de Sumba Oriental, que tem 350.000 habitantes. Outros estimam que sejam milhares.
Por que a escravidão persiste em Sumba?
A escravidão está ligada ao marapu, uma religião local que combina animismo e culto aos ancestrais, e à tradição de castas que divide a sociedade entre nobres (maramba) e escravizados (atas).
O que diz a lei indonésia sobre a escravidão?
A Constituição de 1945 proíbe a escravidão, e o Código Penal criminaliza a privação de liberdade. No entanto, o Estado reconhece certas formas de direito consuetudinário, criando um conflito entre a lei e a tradição.
Como as vítimas podem denunciar os abusos?
Segundo o pastor Marlin Lomi, o sínodo protestante de Sumba Oriental "ajuda as vítimas" desde que denunciem o abuso. A ONG Solidariedade para Mulheres e Crianças de Sumba (Sopan), fundada por Martha Hebi, também oferece apoio.