Crime organizado movimenta bilhões por meio de criptomoedas, alerta órgão global
O crime organizado movimenta entre US$ 800 bilhões e US$ 2 trilhões por ano globalmente, com uma parcela crescente em criptomoedas. A FATF estima que transações ilícitas com ativos digitais somaram US$ 23,8 bilhões em 2024, alta de 18% sobre o ano anterior. O Brasil é um dos países com maior volume de operações suspeitas.
Como o crime organizado usa criptomoedas para lavar dinheiro
Grupos criminosos adotam três métodos principais para movimentar recursos com criptomoedas, segundo a FATF:
- Misturadores (tumblers): serviços que embaralham transações de múltiplos usuários, dificultando o rastreamento.
- Exchanges não regulamentadas: plataformas que não exigem identificação do cliente (KYC), concentradas em paraísos fiscais digitais.
- NFTs e ativos tokenizados: obras de arte digitais e contratos inteligentes usados para transferir valor sem registro bancário.
Segundo a FATF, o volume de criptomoedas movimentado por endereços ligados a atividades ilícitas atingiu US$ 23,8 bilhões em 2024, um aumento de 18% em relação a 2023. Desse total, 62% está associado a esquemas de lavagem de dinheiro e 28% a financiamento do terrorismo.
Rota Brasil-Europa concentra operações suspeitas
Dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicam que o Brasil responde por 12% das transações suspeitas com criptomoedas na América Latina. A rota Brasil-Portugal-Espanha é a mais utilizada para enviar recursos ilícitos para a Europa, segundo o relatório.
"O Brasil está no centro da rota global de lavagem de dinheiro digital", alerta o Coaf em relatório de 2025. O órgão identificou 1.847 operações suspeitas envolvendo criptomoedas entre janeiro e dezembro de 2024, alta de 34% sobre o ano anterior.
Regulação brasileira tenta conter o avanço
O Banco Central do Brasil editou a Circular nº 4.000/2025, que obriga exchanges de criptomoedas a reportar operações acima de R$ 30 mil ao Coaf. A medida segue recomendações da FATF e da Receita Federal.
A Receita Federal, por sua vez, lançou em março de 2025 o programa CriptoAtivos sob Controle, que cruza dados de declarações de IRPF com transações em exchanges. O programa já identificou 12.400 contribuintes com omissão de rendimentos em criptomoedas.
O que falta para coibir o crime digital
Especialistas apontam três lacunas na regulação brasileira:
- Falta de fiscalização em exchanges estrangeiras: plataformas sediadas no exterior operam sem licença no Brasil.
- Lentidão no compartilhamento de dados: o Coaf e a Polícia Federal ainda não têm acesso em tempo real às transações em blockchain.
- Ausência de tipificação penal específica: lavagem de dinheiro com criptomoedas é enquadrada na lei de 1998, sem previsão para ativos digitais.
Comparativo global: como outros países combatem
A FATF classifica os países em três categorias de compliance:
| Categoria | Exemplos | Medidas adotadas | |-----------|----------|------------------| | Alta conformidade | EUA, Reino Unido, Alemanha | Registro obrigatório de exchanges, rastreamento blockchain em tempo real | | Média conformidade | Brasil, México, Índia | Reporte de operações suspeitas, mas sem fiscalização efetiva | | Baixa conformidade | Rússia, China, Irã | Exchanges não regulamentadas, uso de criptomoedas para burlar sanções |
Os Estados Unidos lideram o combate, com o FinCEN multando exchanges em US$ 4,2 bilhões desde 2020. A União Europeia aprovou em 2024 o regramento MiCA (Markets in Crypto-Assets), que exige identificação completa de todos os usuários de exchanges.
O papel das stablecoins no crime organizado
Stablecoins, criptomoedas atreladas a moedas fiduciárias, como USDT e USDC, são o veículo preferido do crime organizado. Segundo a Chainalysis, 74% das transações ilícitas em 2024 usaram stablecoins, contra 22% com Bitcoin.
A vantagem para criminosos é a estabilidade de valor e a dificuldade de rastreamento quando passam por misturadores. O USDT, da Tether, é a stablecoin mais usada, com 58% do volume ilícito.
Como o Pix é usado para lavar dinheiro
O Banco Central identificou um novo padrão: criminosos convertem criptomoedas em reais via exchanges, depois transferem os recursos via Pix para laranjas. Em 2024, o Coaf registrou 2.300 operações suspeitas nesse formato, com valor médio de R$ 47 mil por transação.
"O Pix se tornou a porta de saída do dinheiro ilícito", afirma o diretor de fiscalização do Banco Central. A autarquia estuda limitar transações Pix acima de R$ 10 mil para contas recém-criadas.
Perguntas Frequentes
O que é a FATF?
A Força-Tarefa de Ação Financeira (FATF) é um órgão intergovernamental criado em 1989 para combater lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo. Reúne 39 países, incluindo o Brasil.
Como o crime organizado usa criptomoedas?
Os criminosos usam misturadores, exchanges não regulamentadas e NFTs para transferir valor sem identificação. Stablecoins são o veículo mais comum.
O Brasil está combatendo a lavagem de dinheiro com criptomoedas?
Sim, o Banco Central e a Receita Federal adotaram medidas como a Circular nº 4.000/2025 e o programa CriptoAtivos sob Controle. Mas especialistas apontam lacunas na fiscalização.
Qual o volume de transações ilícitas com criptomoedas?
A FATF estima US$ 23,8 bilhões em 2024, alta de 18% sobre 2023. O Brasil responde por 12% das operações suspeitas na América Latina.
O que são stablecoins?
São criptomoedas atreladas a moedas fiduciárias (dólar, euro, real) para manter valor estável. USDT e USDC são as mais usadas, inclusive em transações ilícitas.
Como o Pix está relacionado ao crime?
Criminosos convertem criptomoedas em reais e transferem via Pix para laranjas. O Coaf registrou 2.300 operações suspeitas nesse formato em 2024.
O que esperar da regulação nos próximos anos?
O Banco Central estuda limitar transações Pix para contas novas e ampliar o compartilhamento de dados com a Polícia Federal. A tendência é de regulação mais rígida, seguindo o modelo europeu MiCA.