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FAB aponta falha da Anac no controle de riscos da Voepass

ResumoA Força Aérea Brasileira (FAB) apontou falha da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) no controle de riscos da Voepass. A investigação do Cenipa revelou que a Anac identificou fragilidades na empresa aérea, mas não converteu essas informações em ações estratégicas. O acidente do voo 2283, com 62 mortes, é um dos maiores do Brasil desde 2007.

A investigação do Cenipa aponta que a Anac identificou fragilidades na Voepass, mas não transformou essas informações em medidas estratégicas. O acidente do voo 2283, que matou 62 pessoas, é um dos maiores do Brasil desde 2007.

Priscila Andrade
FAB aponta falha da Anac no controle de riscos da Voepass

FAB aponta falha da Anac no controle de riscos da Voepass — Foto: Reprodução / Bombou na Web

FAB aponta falha da Anac no controle de riscos da Voepass

O relatório do Cenipa sobre o acidente da Voepass em 2024 revela que a Anac sabia das fragilidades da companhia, mas não agiu com a profundidade necessária. A atuação da agência foi classificada como um dos 19 fatores que contribuíram para a tragédia, que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP).

A investigação, conduzida pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), foi apresentada nesta quarta-feira (23.jul.2026) pelo tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, em Brasília. O documento conclui que a Anac identificou irregularidades na Voepass entre janeiro de 2022 e agosto de 2024, mas não transformou essas informações em decisões estratégicas para controlar os riscos.

O que a Anac sabia e não fez

A Anac realizou inspeções mensais de rampa, auditorias nas bases principal e secundárias, inspeções de vigilância de voo e ações específicas sobre a organização de manutenção da Voepass. Os relatórios da agência chegaram a afirmar que a companhia adotava práticas não aceitáveis para a segurança operacional, que o sistema de supervisão continuada da manutenção não funcionava adequadamente e que havia risco iminente para a operação.

Apesar disso, o Cenipa concluiu que o conjunto de informações reunido pela fiscalização não foi transformado em decisões estratégicas suficientes para controlar os riscos e impedir a continuidade da degradação da segurança operacional. "As condições latentes identificadas pela agência reguladora não foram devidamente aproveitadas nesse processo de gerenciamento de risco", disse Fróes.

Sanções aplicadas, mas insuficientes

A Anac aplicou medidas administrativas preventivas e sancionatórias, incluindo afastamentos de pessoal, restrições operacionais e suspensões cautelares. O relatório não apresenta um número consolidado de todas as sanções, mas registra que aviões da companhia foram impedidos de operar em 24 ocasiões em 2023 e em outras 5 até agosto de 2024.

A agência chegou a suspender 8 das 15 aeronaves da empresa em abril de 2023. Segundo a apresentação do Cenipa, o total de suspensões de aviões registrado de 2022 a 2024 foi 3 vezes superior ao observado no período anterior. No entanto, não foram encontradas evidências de suspensão específica do avião PS-VPB, que posteriormente sofreu o acidente.

Falhas na liberação de aeronaves

As fiscalizações do Cenipa identificaram que aeronaves eram liberadas para operar depois do vencimento do prazo da MEL - lista que estabelece em quais condições um avião pode voar temporariamente com equipamentos inoperantes. Em alguns casos, eram realizados testes que declaravam o sistema de degelo como funcional, sem que tivesse sido feita a manutenção corretiva. A falha reaparecia nos voos seguintes, permitindo a reabertura do prazo da MEL e a continuidade da operação com a pane não solucionada.

De acordo com o relatório, o avião da Voepass decolou com 10 itens registrados na MEL. Um dos equipamentos em pane era o limpador do para-brisa. A MEL proibia a decolagem quando houvesse previsão de chuva no intervalo de uma hora antes a uma hora depois do horário previsto para a partida. A mesma restrição valia para a chegada ao destino e ao aeroporto alternativo. Segundo o Cenipa, as condições meteorológicas existentes no momento impediam o despacho do avião às 11h58.

A cultura organizacional da Voepass

A FAB salientou que a atuação da Anac foi somente um dos 19 fatores que causaram o acidente. As causas identificadas não têm peso de responsabilidade. Também foi reforçado pela investigação que a atuação da agência foi prejudicada por uma "cultura organizacional" viciada por parte da Voepass. Erros e falhas não eram devidamente reportados, o que dificultou a inspeção da Anac.

A investigação também identificou que a documentação meteorológica entregue aos pilotos indicava possibilidade de formação de gelo severo entre os níveis de voo 120 e 210. O avião era certificado para voar em condições de gelo, desde que os sistemas de proteção estivessem funcionando e os procedimentos fossem cumpridos, mas não poderia permanecer em condições de gelo severo.

O que muda para o passageiro

Para quem voa, o caso acende um alerta sobre a fiscalização das companhias aéreas. O relatório mostra que, mesmo com relatórios apontando práticas não aceitáveis e risco iminente, a agência reguladora não conseguiu interromper a operação da Voepass a tempo. O programa de segurança da Anac determinava que reincidências de não conformidades deviam ser avaliadas com prioridade, mas os mecanismos ainda estavam em fase de amadurecimento.

A falha permitiu que a companhia continuasse voando mesmo diante de sucessivos sinais de deterioração da segurança. O documento encerra a investigação técnica da Força Aérea Brasileira (FAB) sobre o acidente que matou 62 pessoas em agosto de 2024. A queda do voo 2283 é um dos maiores desastres aéreos do Brasil desde o acidente com a TAM, em 2007.

Próximos passos

Em resposta ao relatório, a Anac disse que vai analisar as recomendações da FAB. O prazo para conclusão desse trabalho é de até 120 dias. A agência reforçou em seu comunicado que as investigações conduzidas pela comissão de investigação da Força Aérea têm caráter exclusivamente preventivo e não se destinam à atribuição de culpa ou responsabilização, "mas à identificação de fatores que contribuíram para o acidente e de recomendações para aprimorar o sistema de segurança operacional da aviação civil".

As investigações do Cenipa têm finalidade preventiva. O órgão busca identificar fatores que contribuíram para uma ocorrência e emitir recomendações de segurança destinadas a evitar novos acidentes. O procedimento não tem como objetivo atribuir culpa ou responsabilidade criminal, tarefa que cabe às autoridades policiais e judiciais.

Perguntas Frequentes

O que o relatório da FAB aponta sobre a Anac?

O relatório aponta que a Anac identificou fragilidades na Voepass, mas não transformou essas informações em decisões estratégicas para controlar os riscos. A atuação da agência foi listada como um dos 19 fatores que contribuíram para o acidente.

Quantas aeronaves da Voepass foram suspensas?

A Anac suspendeu 8 das 15 aeronaves da empresa em abril de 2023. O total de suspensões registrado de 2022 a 2024 foi 3 vezes superior ao observado no período anterior.

O que é a MEL?

A MEL (Lista Mínima de Equipamentos) é um mecanismo que permite que uma aeronave opere temporariamente com determinados equipamentos inoperantes, desde que sejam cumpridas restrições técnicas, operacionais e de prazo.

O relatório atribui culpa a alguém?

Não. As investigações do Cenipa têm caráter preventivo e não se destinam à atribuição de culpa ou responsabilização. A tarefa de atribuir responsabilidade criminal cabe às autoridades policiais e judiciais.

Qual o prazo para a Anac responder?

A Anac disse que vai analisar as recomendações da FAB em até 120 dias.

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Priscila Andrade

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Priscila Andrade cobre o setor de meios de pagamento e crédito no Bombou na Web. Análises técnicas, sem viés comercial.

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