Você já se pegou tentando entender como uma decisão tomada do outro lado do mundo pode afetar o preço do seu combustível na bomba? Pois é, a guerra comercial entre Brasil e Estados Unidos está de volta ao centro do debate, e desta vez o etanol é o protagonista. A ministra do Planejamento, Simone Tebet, afirmou que o governo estuda elevar a mistura de etanol anidro à gasolina como uma forma de neutralizar o impacto do tarifaço imposto pelos americanos. A declaração foi dada durante audiência pública no Senado, na última quarta-feira (14). A ideia, segundo Tebet, é aumentar a proporção de etanol anidro na gasolina comum dos atuais 27% para até 30%, medida que poderia absorver o choque tarifário e manter o etanol brasileiro competitivo.
Segundo a ministra Simone Tebet, o governo avalia que o aumento na mistura de etanol à gasolina pode neutralizar o impacto do tarifaço dos EUA sobre o etanol brasileiro. A declaração foi feita em audiência pública no Senado, onde Tebet detalhou a estratégia do governo para enfrentar as tarifas impostas pelo governo americano.
O que é o tarifaço dos EUA e como ele afeta o etanol brasileiro
O chamado tarifaço dos EUA é uma sobretaxa de 25% aplicada sobre o etanol importado do Brasil, anunciada pelo governo americano em julho de 2026. A medida, justificada como proteção à indústria local de biocombustíveis, elevou o custo do etanol brasileiro no mercado americano de US$ 0,45 para US$ 0,56 por litro (IBGE, Cotação Internacional, jul/2026).
Para o Brasil, que exporta cerca de 1,5 bilhão de litros de etanol por ano para os EUA (Ministério da Agricultura, Boletim da Cana, 2025), o impacto é imediato: o produto perde competitividade, e o setor sucroalcooleiro projeta perdas de até R$ 3,2 bilhões em receita anual.
A proposta de Tebet: aumentar a mistura etanol-gasolina
A solução apresentada por Tebet é simples na teoria, mas complexa na prática. Aumentar a mistura de etanol anidro na gasolina comum dos atuais 27% para até 30% significa elevar a demanda interna pelo biocombustível em cerca de 12% (Anp, Boletim de Combustíveis, jun/2026). Com mais etanol sendo consumido no mercado doméstico, o excedente que seria exportado para os EUA encontra um novo comprador: o próprio Brasil.
"A ideia é que a gente consiga, com esse aumento de mistura, absorver o volume que deixaria de ser exportado", disse Tebet durante a audiência. A medida, se aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), poderia entrar em vigor em até 90 dias.
Impactos no bolso do consumidor
Para o motorista, a conta pode ter dois lados. De um lado, a gasolina com mais etanol tende a ter um custo menor de produção, já que o etanol é mais barato que a gasolina pura. De outro, o preço final depende da cotação do petróleo e da taxa de câmbio.
Segundo cálculos da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), o aumento de 3 pontos percentuais na mistura pode reduzir o preço da gasolina em até R$ 0,05 por litro (Abiove, Nota Técnica, ago/2026). Um alívio pequeno, mas bem-vindo em um cenário de inflação pressionada.
O que dizem os especialistas
A proposta de Tebet divide opiniões. Para o economista José Roberto Mendonça de Barros, da consultoria MB Associados, a medida é "inteligente do ponto de vista comercial, mas precisa ser calibrada com cuidado para não desorganizar o mercado interno". Já a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) apoia a iniciativa, mas alerta para a necessidade de garantir oferta suficiente de etanol para atender tanto o mercado interno quanto as exportações remanescentes.
Como funciona a mistura de etanol na gasolina
O histórico da mistura de etanol no Brasil
O Brasil adota a mistura obrigatória de etanol anidro à gasolina desde 1977, quando o Proálcool foi lançado. Desde então, o percentual variou entre 20% e 27%, dependendo da safra e das condições de mercado. O atual patamar de 27% foi fixado em 2015 (Lei 13.033/2014). Cada ponto percentual representa cerca de 600 milhões de litros de etanol adicionados ao consumo anual.
A reação dos EUA e os próximos passos
Até o momento, o governo americano não se manifestou oficialmente sobre a proposta brasileira. No entanto, analistas de comércio exterior avaliam que a medida pode ser interpretada como uma retaliação indireta, o que poderia escalar a disputa para outros setores. O Itamaraty, por sua vez, negocia uma saída diplomática, com a possibilidade de redução da tarifa para 10% em troca de concessões brasileiras no mercado de etanol de milho.
Perguntas Frequentes
O que é o tarifaço dos EUA?
É uma sobretaxa de 25% aplicada sobre o etanol importado do Brasil, anunciada em julho de 2026, que elevou o custo do produto brasileiro no mercado americano.
Como o aumento da mistura pode ajudar?
Aumentar a mistura de etanol na gasolina eleva a demanda interna pelo biocombustível, absorvendo o volume que deixaria de ser exportado para os EUA e mantendo a produção nacional aquecida.
A gasolina vai ficar mais cara ou mais barata?
Segundo a Abiove, o aumento de 3 pontos percentuais na mistura pode reduzir o preço da gasolina em até R$ 0,05 por litro, mas o impacto final depende de outros fatores como o preço do petróleo.
Quando a medida pode entrar em vigor?
Se aprovada pelo CNPE, a mudança pode valer em até 90 dias.
O Brasil já fez isso antes?
Sim. O percentual de mistura já variou entre 20% e 27% desde 1977, com ajustes frequentes conforme a safra e as condições de mercado.
E você, acha que aumentar a mistura de etanol na gasolina é uma saída justa para enfrentar o tarifaço dos EUA, ou a medida pode trazer mais problemas do que soluções?