Da febre dos pets ao comércio de carne de cachorros: o contraste que divide a China
Como um país que ama seus cães de estimação ainda permite o abate para consumo? Em 2026, a China vive uma contradição que salta aos olhos: enquanto a classe média das grandes cidades gasta fortunas com veterinários e ração premium, o comércio de carne de cachorros segue ativo em províncias do sul e nordeste. O que está por trás dessa divisão?
A resposta curta: a China não possui uma lei federal que proíba o abate de cães para consumo humano. A decisão cabe a cada província ou município. Enquanto Shenzhen e Zhuhai já baniram a prática, cidades como Yulin, em Guangxi, mantêm tradições que atraem tanto consumidores quanto críticas internacionais.
O boom dos pets urbanos
A febre dos pets na China é um fenômeno recente e acelerado. Segundo a consultoria Euromonitor, o mercado pet chinês movimentou mais de US$ 30 bilhões em 2025, com crescimento anual de dois dígitos. Cães são vistos como membros da família, com direito a roupas, spas e creches.
Esse movimento é impulsionado por fatores demográficos: a taxa de natalidade em queda e o envelhecimento da população criam um vácuo afetivo. Jovens solteiros e casais sem filhos adotam cães como substitutos emocionais. A pergunta certa é outra: por que essa onda de afeto não se traduziu em proteção legal para todos os cães?
O comércio que insiste em existir
Em paralelo, o comércio de carne de cachorros persiste, especialmente em regiões rurais e de baixa renda. Dados do governo chinês indicam que o consumo de carne canina caiu cerca de 40% entre 2015 e 2025, mas ainda envolve milhões de animais por ano. A cidade de Yulin sedia um festival anual que, embora não oficial, atrai turistas e críticas.
A carne de cachorro é consumida tradicionalmente em províncias como Guangxi, Guangdong e Jilin. A justificativa cultural é que ela "aquece o corpo" no inverno. Promessa é uma coisa, entrega é outra: não há evidência científica que sustente esse benefício.
O que a lei diz?
A China não tem uma lei federal que proíba o abate de cães para consumo. A decisão é descentralizada. Em 2020, Shenzhen se tornou a primeira cidade a banir a prática, seguida por Zhuhai. Mas a maioria dos municípios ainda não regulamentou o tema.
Segundo a organização Animals Asia, cerca de 10 milhões de cães são abatidos por ano para consumo na China, a maioria capturados em áreas rurais ou de rua. O governo chinês classifica cães como "animais de companhia" em documentos oficiais, mas não há punição para quem os comercializa como alimento.
O papel do ativismo e da pressão internacional
Organizações como a Humane Society International e a Animals Asia pressionam por uma proibição federal. Em 2023, uma petição pública reuniu mais de 1 milhão de assinaturas, mas o governo não respondeu com legislação.
A pressão internacional também cresce. Países como os Estados Unidos e membros da União Europeia criticam abertamente a prática. No entanto, a China defende a soberania cultural e evita ceder a pressões externas.
Os limites da mudança
A transição não é simples. Para comunidades rurais, a criação de cães para carne é uma fonte de renda. Sem alternativas econômicas, a proibição simples pode gerar desemprego.
Além disso, a fiscalização é um desafio. O abate ocorre em mercados informais, sem registro sanitário. A carne muitas vezes é vendida como "carne de cordeiro" ou "carne de coelho" para evitar o estigma.
O que esperar?
A tendência é de declínio gradual do consumo, mas sem uma proibição federal, o comércio deve persistir por mais uma década. O contraste entre o amor pet urbano e o abate rural reflete as desigualdades profundas da China.
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Perguntas Frequentes
Por que a China ainda permite o comércio de carne de cachorro?
Não há uma lei federal que proíba a prática. A regulamentação é municipal, e a maioria das cidades ainda não legislou sobre o tema.
O consumo de carne de cachorro está caindo na China?
Sim. Dados indicam queda de cerca de 40% entre 2015 e 2025, impulsionada pela urbanização e pela pressão de ativistas.
Quais cidades já proibiram o comércio de carne de cachorro?
Shenzhen (2020) e Zhuhai (2021) foram as primeiras. Outras cidades, como Pequim e Xangai, não proíbem oficialmente, mas a prática é rara.
O festival de Yulin ainda existe?
Sim, mas perdeu força. A edição de 2025 teve menos da metade dos participantes de 2019, segundo relatos da imprensa local.
O que o governo chinês pensa sobre o tema?
O governo classifica cães como "animais de companhia", mas não criminaliza o abate para consumo. A postura oficial é de não interferência em tradições locais.
Como ajudar a reduzir o comércio de carne de cachorro na China?
Apoiar organizações como Animals Asia e Humane Society International, que trabalham com educação e resgate, é uma forma. Pressão diplomática também tem efeito.