Árbitras acusam diretor da Federação Cearense de Futebol por tentativa de estupro e assédio
O que leva uma profissional a denunciar um superior no esporte? No Ceará, um grupo de árbitras de futebol decidiu romper o silêncio e acusar um diretor da Federação Cearense de Futebol (FCF) de tentativa de estupro e assédio sexual. As denúncias, que vieram a público em maio de 2026, expõem um padrão de comportamento que, segundo as vítimas, se arrastava há meses. A promessa de um ambiente seguro no futebol é uma coisa; a entrega, como mostram os relatos, é outra.
As denúncias: o que as árbitras relataram
Segundo as vítimas, o diretor teria se aproximado com pretextos profissionais, mas o comportamento rapidamente escalou para tentativas de contato físico não consentido e chantagem emocional. Uma das árbitras, que preferiu não se identificar, afirmou que o assédio começou com mensagens insistentes e convites para encontros fora do ambiente de trabalho. "Ele usava a posição de poder para me coagir", disse ela, em depoimento registrado na delegacia.
A FCF, em nota oficial, afirmou que "repudia qualquer forma de violência" e que "colabora com as investigações". A entidade, no entanto, não confirmou se o diretor foi afastado das funções durante a apuração.
Repercussão no esporte cearense
O caso gerou comoção e protestos. No dia seguinte à divulgação das denúncias, um grupo de atletas e ex-atletas realizou um ato em frente à sede da FCF, em Fortaleza. A Associação dos Árbitros de Futebol do Ceará (AAFC) emitiu uma nota de apoio às vítimas e cobrou medidas concretas.
"O que aconteceu não é isolado", afirmou a presidente da AAFC, Maria Clara Costa, em entrevista coletiva. "Precisamos de protocolos claros de denúncia e proteção para que outras mulheres não passem pelo mesmo."
O papel das instituições
A investigação está a cargo da Delegacia de Proteção à Mulher (DDM) do Ceará, que já ouviu as primeiras testemunhas. A polícia informou que as provas colhidas até agora incluem prints de conversas e registros de áudio.
A promessa de punição, porém, esbarra na morosidade dos processos. A FCF, que deveria ter instaurado uma sindicância interna, ainda não se pronunciou sobre o afastamento do diretor. A pergunta que fica é: até quando o silêncio institucional vai proteger agressores?
Contexto nacional: assédio no futebol é problema estrutural
O caso cearense não é exceção. Em 2025, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) registrou 47 denúncias de assédio sexual entre profissionais do esporte, segundo dados do Ministério do Esporte. Apenas 12 resultaram em afastamento de acusados.
A pesquisa "Mulheres no Futebol", do Instituto DataEsporte, apontou que 68% das árbitras brasileiras já sofreram algum tipo de assédio moral ou sexual na carreira. O número revela um ambiente hostil que a FCF, ao que tudo indica, não conseguiu conter.
O que diz a lei
A tentativa de estupro é crime previsto no artigo 217 do Código Penal, com pena de 2 a 6 anos de reclusão. O assédio sexual, tipificado no artigo 216-A, pode render até 2 anos de detenção. As vítimas já registraram boletim de ocorrência e pediram medidas protetivas.
A advogada criminalista Lara Mendes, especialista em direitos das mulheres, explicou que o caso pode se desdobrar em duas frentes: a criminal, na esfera policial, e a administrativa, na FCF e na CBF. "A federação tem o dever de investigar e punir internamente, sob risco de conivência", afirmou.
Limitações e riscos
Ainda que as provas iniciais sejam robustas, o processo judicial pode se arrastar por anos. Além disso, as vítimas enfrentam retaliações, uma delas já recebeu ameaças anônimas após a denúncia. O medo de represálias é o principal motivo pelo qual muitas mulheres não denunciam.
A pergunta certa é outra: quantas árbitras ainda vão precisar gritar para serem ouvidas?
Perguntas Frequentes
Quem é o diretor acusado?
O nome do diretor não foi divulgado oficialmente, mas a imprensa local apurou que se trata de um membro da diretoria de arbitragem da FCF. A identidade será revelada após indiciamento.
Quantas árbitras denunciaram?
Até o momento, quatro árbitras formalizaram denúncias contra o mesmo diretor, em relatos que descrevem padrões semelhantes de assédio.
A FCF afastou o diretor?
A Federação Cearense de Futebol não confirmou afastamento. A entidade afirma que aguarda o fim das investigações para tomar medidas.
Como denunciar casos semelhantes?
Vítimas podem procurar a Delegacia de Proteção à Mulher, o Ministério Público do Ceará ou a Ouvidoria da CBF, que mantém canal anônimo de denúncias.
Qual a pena para tentativa de estupro?
A pena varia de 2 a 6 anos de reclusão, podendo ser aumentada se houver violência ou grave ameaça.
O que a CBF pode fazer?
A CBF pode suspender o diretor por tempo indeterminado e abrir processo administrativo, com base no Código de Ética da entidade.
assédio no futebol feminino direitos das mulheres no esporte