Uma mulher de 34 anos, sobrevivente de uma tentativa de feminicídio, descreveu o momento em que a arma do ex-companheiro falhou: 'Me vi morta, estou viva por um milagre'. O caso ocorreu em São Paulo e está sendo investigado pela Polícia Civil. A falha do revólver calibre 38 impediu o disparo que, segundo a vítima, seria fatal.
'Me vi morta, estou viva por um milagre', diz mulher que sobreviveu a tentativa de feminicídio após arma do ex falhar. O relato foi feito em entrevista à TV Globo, na qual a vítima detalhou os minutos de terror. 'Ele apontou para minha cabeça e puxou o gatilho. Ouvi o clique, mas nada aconteceu. Foi um milagre', afirmou.
O caso: como a falha da arma salvou uma vida
A tentativa de feminicídio aconteceu na noite de 12 de junho, na zona sul de São Paulo. A vítima, que preferiu não se identificar, havia terminado o relacionamento há duas semanas. O ex-companheiro, de 38 anos, invadiu a residência dela armado com um revólver calibre 38.
Segundo o boletim de ocorrência, o homem apontou a arma para a cabeça da vítima e puxou o gatilho. A arma falhou. Ele tentou novamente, sem sucesso. Aproveitando a confusão, a mulher correu para a casa de um vizinho e acionou a Polícia Militar.
O suspeito fugiu, mas foi preso horas depois. A Polícia Civil apreendeu o revólver, que será periciado para determinar a causa da falha. 'Pode ter sido um defeito mecânico, munição velha ou até mesmo um erro de manuseio', explicou o perito criminalista Carlos Eduardo de Souza, em entrevista ao G1.
A arma que falhou: entenda o que pode ter acontecido
Armas de fogo, especialmente as mais antigas ou mal conservadas, podem falhar por diversos motivos. No caso do revólver, as causas mais comuns incluem:
- Munição defeituosa: pólvora úmida ou estragada impede a combustão.
- Mau contato do percussor: peça que bate na espoleta pode estar desgastada ou suja.
- Tambor desalinhado: o cilindro não gira corretamente, impedindo o disparo.
A Polícia Civil informou que a arma não tinha registro e era de origem desconhecida. 'Isso é comum em casos de violência doméstica: armas ilegais, muitas vezes compradas no mercado paralelo, sem manutenção adequada', afirmou a delegada Ana Paula de Oliveira, titular da Delegacia de Defesa da Mulher de São Paulo.
Dados de feminicídio no Brasil: a dimensão do problema
O feminicídio, assassinato de mulheres por razões de gênero, é uma epidemia no Brasil. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2024 foram registrados 1.463 casos de feminicídio no país. Isso representa uma média de quatro mulheres mortas por dia.
No primeiro trimestre de 2025, os dados parciais indicam 389 casos (FBSP, Anuário de Segurança Pública, 2025). A taxa de feminicídio no Brasil é de 1,4 por 100 mil mulheres, uma das mais altas da América Latina.
A violência doméstica também atinge números alarmantes. Em 2024, o Ligue 180 recebeu 1,2 milhão de denúncias de violência contra a mulher (Ministério das Mulheres, relatório anual, 2025).
Lei Maria da Penha: o que diz a legislação
A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) é o principal instrumento legal de proteção às mulheres vítimas de violência doméstica no Brasil. Ela define cinco tipos de violência: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral.
Entre as medidas protetivas previstas estão:
- Afastamento do agressor do lar
- Proibição de contato com a vítima
- Monitoramento por tornozeleira eletrônica
No caso da sobrevivente de São Paulo, a vítima já havia solicitado medida protetiva contra o ex-companheiro. 'Ele descumpriu a ordem e invadiu minha casa. A polícia disse que não podia fazer nada até que ele cometesse algo mais grave', relatou.
Como denunciar e buscar ajuda
Se você está em situação de violência doméstica, saiba que existem canais de denúncia e acolhimento:
- Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher, funciona 24 horas, inclusive WhatsApp (61) 99656-5008.
- Disque 100: Direitos Humanos, para denúncias anônimas.
- Polícia Militar: 190, em caso de emergência.
- Delegacia da Mulher: unidades especializadas em todo o país.
A vítima do caso relatado recebeu apoio da Casa da Mulher Brasileira, que oferece acolhimento, atendimento psicológico e jurídico. 'Sem eles, eu não teria forças para recomeçar', disse ela.
A fala da sobrevivente: 'Me vi morta'
Em entrevista exclusiva ao G1, a mulher detalhou o momento exato da tentativa de homicídio. 'Ele chegou furioso, dizendo que se não fosse dele, não seria de mais ninguém. Apontou a arma para a minha cabeça. Eu fechei os olhos e pensei: é agora. Ouvi o clique, mas nada. Ele tentou de novo, e nada. Foi um milagre', contou.
A vítima diz que, após o ocorrido, mudou de cidade e vive em local sigiloso. 'Estou com medo, mas também grata. Quero que minha história sirva de alerta para outras mulheres: denunciem, não esperem a violência escalar', afirmou.
O que diz a defesa do suspeito
O advogado do ex-companheiro, Dr. Ricardo Mendes, afirmou que seu cliente nega a intenção de matar. 'Ele estava alterado, mas nunca teve a intenção de tirar a vida dela. A arma falhou, sim, mas ele não puxou o gatilho com essa finalidade', disse em nota.
A Polícia Civil, no entanto, já indiciou o homem por tentativa de feminicídio qualificado. A pena pode chegar a 30 anos de reclusão, caso condenado.
Perguntas Frequentes
O que é feminicídio?
Feminicídio é o assassinato de uma mulher por razões de gênero, ou seja, quando o crime envolve violência doméstica, menosprezo ou discriminação à condição de mulher. A Lei nº 13.104/2015 tornou o feminicídio um crime hediondo.
Como denunciar uma tentativa de feminicídio?
Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou 190 (Polícia Militar) em caso de emergência. Também é possível procurar a Delegacia da Mulher mais próxima.
A Lei Maria da Penha protege contra tentativa de feminicídio?
Sim. A lei prevê medidas protetivas que podem ser solicitadas pela vítima antes mesmo de o crime ocorrer. O descumprimento pode levar à prisão preventiva do agressor.
O que fazer se a medida protetiva for descumprida?
Ligue 190 imediatamente. A polícia pode prender o agressor em flagrante por descumprimento de medida judicial.
Armas de fogo falham com frequência?
Sim, especialmente armas ilegais ou mal conservadas. Estimativas da Polícia Federal indicam que até 10% dos disparos com armas irregulares podem falhar por problemas mecânicos ou de munição.
Onde buscar acolhimento após uma tentativa de feminicídio?
A Casa da Mulher Brasileira oferece atendimento multidisciplinar em várias capitais. Também há ONGs como o Instituto Maria da Penha e a Associação de Apoio à Mulher Vítima de Violência.