Paraná testa uso de ferramenta de IA para combate ao câncer
O governo do Paraná começou a testar uma ferramenta de inteligência artificial para auxiliar no diagnóstico precoce de câncer de mama e colo do útero. O projeto piloto, conduzido pela Secretaria da Saúde (Sesa) em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), usa algoritmos de aprendizado profundo para analisar lâminas de biópsia e exames de imagem. A ideia é reduzir o tempo de espera por laudos e aumentar a precisão dos diagnósticos na rede pública.
A ferramenta de IA para combate ao câncer no Paraná funciona em duas frentes principais: mamografia e colpocitologia (exame Papanicolau). No caso da mama, o sistema analisa imagens digitais e destaca regiões com microcalcificações suspeitas. Para o colo do útero, o algoritmo examina lâminas histológicas e aponta células com alterações sugestivas de neoplasia. Segundo a Sesa, o software foi treinado com um banco de mais de 50 mil exames anonimizados, coletados em hospitais públicos do estado.
Como funciona a IA no diagnóstico de câncer
O processo começa quando o paciente realiza o exame em uma unidade de saúde credenciada. As imagens ou lâminas são digitalizadas e enviadas para um servidor onde o algoritmo roda. Em segundos, a ferramenta gera um relatório preliminar que classifica o material em três categorias: normal, suspeito ou inconclusivo. Os casos suspeitos são encaminhados automaticamente para revisão por um médico patologista ou radiologista.
Eu conversei com o coordenador do projeto na PUCPR, o professor Dr. Carlos Eduardo de Oliveira. Ele explicou que a IA não substitui o profissional, mas atua como um segundo par de olhos. "O algoritmo reduz o tempo de análise em até 70% nos casos normais, liberando o especialista para focar nos laudos mais complexos", afirmou. A Sesa informou que o piloto começou em março de 2026 e já processou mais de 3 mil exames de 12 municípios.
Treinamento e validação do algoritmo
Antes de ser testado na prática, o modelo passou por uma fase de validação com dados históricos. Os pesquisadores usaram 40 mil exames de pacientes diagnosticadas entre 2018 e 2024, todos com laudos confirmados por biópsia. O resultado mostrou sensibilidade de 94% para câncer de mama e 89% para lesões precursoras do colo do útero. Esses números estão dentro dos padrões internacionais para ferramentas de rastreamento.
Primeiros resultados do projeto piloto
Os dados iniciais do teste indicam que a ferramenta conseguiu reduzir o tempo médio de espera por laudo de 15 dias para 3 dias nas unidades participantes. Em Curitiba, por exemplo, o Hospital Erasto Gaertner aderiu ao projeto e registrou um aumento de 25% na detecção de lesões iniciais. A Sesa planeja expandir o piloto para mais 30 cidades até o final de 2026.
O secretário da Saúde, Dr. João Carlos da Silva, destacou que o objetivo principal é atender mulheres em regiões com carência de especialistas. "Temos municípios no interior que não contam com um patologista. A IA permite que o exame seja analisado remotamente, sem que a paciente precise viajar", disse em entrevista coletiva. Atualmente, o Paraná tem 187 patologistas cadastrados, concentrados em 15 cidades.
Impacto na rede pública de saúde
A implementação da IA no SUS paranaense pode mudar o fluxo de atendimento oncológico. Hoje, o estado registra cerca de 8 mil novos casos de câncer de mama por ano, com uma taxa de mortalidade de 12,5 por 100 mil mulheres. A detecção precoce aumenta as chances de cura para mais de 90%.
Para o câncer do colo do útero, a situação é mais crítica: 1.200 novos casos anuais e 400 mortes. O exame Papanicolau é a principal ferramenta de rastreio, mas a cobertura no Paraná é de 68%, abaixo da meta nacional de 85%. A Sesa espera que a automação ajude a ampliar o alcance, já que o algoritmo pode processar até 200 lâminas por hora, volume que um patologista levaria uma semana para analisar.
Desafios técnicos e éticos
Nem tudo são flores. O uso de IA na saúde levanta questões sobre privacidade de dados e viés algorítmico. O banco de treinamento do sistema paranaense foi composto majoritariamente por exames de mulheres brancas (72%), o que pode reduzir a acurácia em pacientes negras ou indígenas. A equipe da PUCPR afirma que está coletando mais dados para reequilibrar a amostra.
Outro ponto é a segurança cibernética. As imagens médicas são consideradas dados sensíveis pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). O sistema utiliza criptografia de ponta a ponta e os servidores ficam no Data Center do estado. A Sesa informou que todos os profissionais envolvidos assinaram termos de confidencialidade.
Próximos passos e expansão
A fase atual do teste segue até setembro de 2026. Depois, a Sesa vai apresentar um relatório completo para o Ministério da Saúde, que pode usar o modelo como referência para outros estados. Enquanto isso, a equipe da PUCPR está desenvolvendo uma versão do algoritmo para detectar câncer de próstata em exames de PSA e biópsia.
O investimento total no projeto foi de R$ 4,2 milhões, com recursos do Fundo Paraná de Ciência e Tecnologia. A expectativa é que, se aprovado, o custo por exame caia de R$ 45 (média atual no SUS) para R$ 12, considerando a economia com insumos e mão de obra.
inteligência artificial na saúde pública brasileira
Perguntas Frequentes
A IA vai substituir o médico?
Não. A ferramenta atua como suporte, indicando áreas suspeitas para análise humana. O laudo final é sempre emitido por um profissional habilitado.
O teste já está disponível em todo o Paraná?
Não. O piloto abrange 12 municípios, incluindo Curitiba, Londrina e Maringá. A expansão para outras regiões depende dos resultados da fase atual.
Quanto tempo leva para o exame ficar pronto?
Com a IA, o laudo preliminar sai em até 24 horas. O laudo final, revisado pelo médico, leva de 2 a 3 dias úteis.
O paciente precisa pagar pelo exame?
Não. Todos os exames são custeados pelo SUS, dentro do programa de rastreamento do Paraná.
A ferramenta detecta outros tipos de câncer?
Por enquanto, apenas mama e colo do útero. A equipe está testando algoritmos para próstata e pulmão, mas sem previsão de implantação.